Neste nosso adorado país que mais parece uma aldeia, onde todos se conhecem e todos sabem de tudo, o que mais me irrita são as politiquices e não falo apenas em partidos políticos mas sim das politiquices das pessoas e do nosso dia-a-dia.
Hoje entrei no cabeleireiro pela tarde, ia metida comigo mesma, com cabisbaixo, entrei, olhei em redor para analisar o ambiente, saudei todos ainda de cabisbaixo, levantei a cabeça, desviei o cabelo dos olhos e pedi para me arranjarem as unhas, o curioso não é eu arranjar as unhas mas sim o ritual que estava para acontecer por causa do que é ou não é politicamente correcto.
Seguiu-se então um questionário forçado sobre como estariam os meus parentes, a escola, a dança, o cão e umas tantas outras coisas que nem ao menino Jesus interessam, respondi, “sim estava tudo óptimo”, na esperança de que aquela procissão de perguntas acabasse, mas foi em vão, porque é politicamente correcto falar imenso com quem se está a atender ou com as pessoas do nosso lado.
Respirei fundo, reflecti sobre este assunto e deixei escapar um sorriso malicioso porque o que me passou pela cabeça foi mandar tudo “pró boda”, mas não… voltei a sorrir e contive-me, remeti o meu olhar para o jardim em frente e deixei-me encantar por duas crianças a brincar, jurei que queria ser como aquelas crianças mas o medo de voltar a crescer tirou-me logo a vontade, estava a pensar na felicidade das crianças quando ouvi: “ Rute, Rute…Rutezinha”, rebolei os olhos e sorri novamente mas desta vez sem vontade nenhuma, pensei para mim mesma porque raio teria eu de responder a mais perguntas. “Hoje não estás nos teus dias”, pronto desta é que foi, desatei então num jorrar de pensamentos e perguntas lindíssimas para aquela senhora sentada a minha frente.
“ Ouça lá, porque raio não posso eu entrar aqui, saudá-la, sentar-me e ficar a pensar na minha vida e á espera que se despache a “limpar-me” 5 euros em 30 minutos? Porque raio tenho de a aturar, a si e ao seu questionário, porque raio tem de ser sempre tão politicamente correcta? Não a enerva? Não tem dias em que só olhe apetece dizer aquela velhinha de 75 anos que vem cá fazer a maquilhagem que ela nunca vai conseguir ser bonita e para se deixar disso e ir cuidar dos netos para casa? Ou disser a senhora do café ao lado que ela cheira mal e por isso não lhe faz a depilação? Porque raio não manda as damas com a mania que são ricas “pró boda”?
Mas não… respirei fundo de novo, fechei os olhos, sorri e respondi: “pois, ando cansada”, a seguir a esta resposta voltei o olhar novamente para as crianças que agora estavam a lanchar e tenho para mim que estavam a dizer frases bastante ingénuas como o jurar de uma amizade eterna quando todos nós, ” os crescidos” sabemos que tal coisa não existe.
Depois pensei ainda que acabara de fazer a coisa mais eloquente do mundo, engoli um discurso de rebelião e anárquico em prole do politicamente correcto e das politiquices deste mundo, dizendo que estava cansada, quando era mentira! Apenas queria paz e sossego.
Ou seja, chamamos mentirosos e aldrabões aos políticos mas somos iguais a eles porque também mentimos e aldrabamos em prole do politicamente correcto, prometemos, prometemos e quase nunca cumprimos, dizemos uma coisa mas o que nos vai na alma é o completo oposto mas por causa das politiquices, mentimos!
E a verdade é que todos nós temos um Sócrates dentro de nós e uma Manuela Ferreira Leite ao nosso lado.
Rute Sousa